Tamanho da Fonte
César Fonseca
cesarsfonseca@gmail.com Redação Jornal da Comunidade
O poder de comprar, impondo preço baixo - prática oligopsônica – e o poder de vender, impondo preço alto - prática oligopólica – , vão tomando conta geral da economia brasileira na Nova República na Era Lula, abalada pelos desdobramentos da crise financeira internacional, que desarticula a produção e o consumo em meio ao colapso do crédito e à sobrevalorização do real frente ao dólar desvalorizado atraído pelos juros altos, afetando as exportações, desestruturando empresas e sinalizando desemprego incontrolável.
Depois das ampliações crescentes das práticas oligopólicas e oligopsônicas dos bancos, que, no Brasil, cobram os juros mais altos do mundo; da Petrobras, que, mesmo com o preço do petróleo em queda, não reduz o preço da gasolina ao consumidor; da Ambev, que transnacionalizou o capital nacional no oligopólio cervejeiro internacional, sem baixar o preço do produto; da Nestlê, que tenta comprar a Parmalat, para ampliar seu domínio sobre os fornecedores de leite; das tradings agrícolas, que fidelizam, sob juro alto, os produtores, financiando-lhes safras sem correr riscos; das distribuidoras de energia elétrica, que reajustam acima da inflação para pagar o ICMS alto; das fabricantes de fertilizantes, que subordinam os produtores aos seus preços de compra e de venda; da indústria de cimento, que faz o que quer do consumidor há anos etc, agora, chegou a vez do setor de alimentos, também, caminhar para a oligopolização e oligopsonização.
A fusão Sadia (32%)-Perdigão (68%), que vira Brasil Foods (BRF) - , na avaliação do consultor empresarial, ex-diretor do BNDES e ex-presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), Ruy Coutinho, terá que ser vista e fiscalizada em sua dualidade dinâmica interativa, dialética, com grande potencial de destruição da concorrência. Por um lado, diz, ela é positiva, por outro, negativa. Haverá que medir os dois polos opostos, que, contraditoriamente, se repelem, para alcançar síntese que seja do interesse dos agentes econômicos envolvidos, governo, empresários, produtores e consumidores. Caso contrário, o peso do poder econômico-financeiro expresso na fusão em si tenderia, sem fiscalização, a ganhar autonomia, impondo lógica dada pela força que a própria fusão proporciona, diante dos concorrentes incapazes de competir.
COMPETIÇãO X PODER
O lado bom representa o aumento do poder competitivo do grupo empresarial no cenário global, com aumento extraordinário da disputa pelo mercado em meio à bancarrota financeira atolada no empoçamento do crédito bancário nas principais praças mundiais, Europa e Estados Unidos. Se não houver grupos fortes disputando o mercado externo, como forma de compensação pela depressão dos mercados internos, somados aos juros e impostos elevados, dificilmente, será possível manter constante a taxa de lucro das empresas. Sob esse ponto de vista a Brasil Foods, segundo Coutinho, é show de bola. Fortalece o nome do país, a sua marca no cenário internacional etc.
O lado ruim, no entanto, poderá emergir em decorrência do excesso de poder adquirido pela Brasil Foods nas relações de trocas com seus parceiros. Ela disporá de alto poder de compra e poder de venda de mercado, atuando na condição de oligopólio em que se transformou, credenciando-se, conjugadamente, a seguir adiante na prática do oligopsônio.
Cade precisa ficar de olho
Por essa razão, o Cade, segundo Coutinho, não poderá dar moleza, especialmente, porque a negociação das duas maiores empresas brasileiras de alimentos processados não tem precedente, setorialmente. Trata-se de cadeia produtiva em que a cabeça se candidata ao oligopólio e ao oligopsônio e nas fases intermediárias se situam micro e pequenos proprietários rurais associativamente organizados em seus interesses convergentes, mas que terão que disputar com uma força muito mais poderosa do que a que vigorava antes, quando atuavam as duas empresas competentindo entre si. Sem essa competição, que foi eliminada pela fusão, o poder de barganha da cabeça forte frente à intermediação produtiva pulverizada, que, igualmente, compete entre si, ganharia maior ressonância.
O potencial para o exercício efetivo da oligopolização e da oligopsonização econômica no setor alimentício fica claro pelos números. A BRF se transforma na maior exportadora do país e a maior exportadora de frango do mundo. Pontificará como décima maior no setor de alimentos nas Américas, gerando 116 mil empregos. Abaterá 1,7 bilhão de aves e 8 milhões de suinos, correspondendo, respectivamente, 33% e 31% do mercado nacional.
A fusão empresarial, diz Coutinho, representará predomínio de 57% da industrialização de carnes; 71,3% das carnes congeladas, 65% da fabricação das margarinas; 88% das de massas prontas; 52,6% das exportações de frango in natura e 40% das exportações de carne suína. No processo de transformar a dualidade, Sadia-Perdigão, em unidade - Brasil Foods - os ajustes serão inevitáveis e os seus resultados serão ampliação do poder de mercado, tanto como compradora como vendedora.
Configura-se, segundo Coutinho, a chamada liderança de preços de vendas - “price leadership” - dos integrantes do oligopólio e do oligopsônio, cujos efeitos são puxar os preços dos demais membros da cadeia produtiva. A teoria econômica conclui que as práticas oligopsônicas geram redução de custos que não são repassadas aos consumidores. Vale dizer, embolsamento geral de lucro, enquanto o consumidor chupa o dedo.
Negócio da China para chineses
A unificação das estruturas das duas empresas em tecnologia da informação, recursos humanos, logística etc, voltadas para correção de rumos e fuga de falhas de mercado, que levaram a Sadia à bancarrota financeira, no ambiente da crise global, acontece no momento em que esquentam as negociações Brasil-China para abertura do mercado chinês às proteínas animais brasileiras.
Em outubro, durante a segunda reunião da Comissão Sino-Brasileira, estarão em jogo 54 milhões de toneladas de carne suína. Se for acertado o negócio, haverá pressão altista sobre o produto. A Perdigão, que focava o mercado interno, e a Sadia, o externo, com um portfólio de 700 produtos vendidos em 100 países, terão tudo a ganhar. Além disso, a China, de acordo com as negociações em curso, concederá licenças de importação de frangos, já havendo 24 frigoríficos em frenéticas negociações. Trata-se de tentativa brasileira, na medida em que os chineses, com o poder de fogo financeiro disponível, avança, poderosamente, sobre o Mercosul, deslocando os industriais brasileiros, que, apavorados, pedem intervenção imediata na política cambial, para detonar o câmbio flutuante, que perdeu utilidade.
Os chineses também atuam na base do oligopólio e do oligopsônio. Detendo mais de 3 trilhões de dólares em títulos da dívida americana e em moeda de Tio Sam, oriundos de acumulados superávits comericiais com os EUA, graças ao câmbio desvalorizado, os chineses querem, agora, desovar seu excesso monetário. Temem bancarrotas e desvalorizações cambiais aceleradas. Enquanto não emplacam sua proposta de nova moeda internacional para substituir o dólar, tentam sair da moeda americana investindo na América do Sul. Fazem como fizeram os japoneses, nos anos de 1970 e 1980, com os nipodólares, comprando ativos pelo mundo. Os chineses, agora, na mesma situação japonesa de outrora, compram parte das reservas do petróleo do pré-sal e se associam ao maior empresário brasileiro, Eike Batista, na área de minérios. Capitalizam em ativos fortes os dólares que dispõem, candidatos à desvalorização. Negócio da china para os chineses.
Classificação Atual
( 3 )
Dê a sua classificação:
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do Grupo Comunidade
Home | Contato | Expediente | Anuncie | Receba nossas Publicações
Grupo Comunidade de Comunicação © 2008 | Política de Privacidade | Termos de uso