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Uma crítica ao poder e sua hierarquia

O aniversário da infanta, conto do escritor e dramaturgo irlandês Oscar Wilde, ganha adaptação para o teatro nas mãos dos diretores Adriano e Fernando Guimarães

Tamanho da Fonte     DIANA LEIKO
dmiura@jornaldacomunidade.com.br
 Redação Jornal da Comunidade

“Devem-se escolher os amigos pela beleza, os conhecidos pelo caráter e os inimigos pela inteligência”. A célebre frase de Oscar Wilde revela a importância que o escritor sempre deu às questões estéticas. A beleza foi sua companheira e tema bastante explorado em grande parte de suas obras, reflexo da época em que viveu.


E ainda que seus livros tenham sido escritos no século IX e tratado de assuntos decorrentes daquele momento histórico, cabem perfeitamente à realidade atual. Eis a razão que motivou os diretores de teatro Adriano e Fernando Guimarães a levarem para o palco a adaptação de um conto do autor, que discute a beleza como sinônimo de virtude, e lança uma crítica ácida ao poder e sua hierarquia.

 

Celebração incomum
A história do espetáculo O aniversário da Infanta – adaptado do conto de Wilde publicado em 1888 – se passa durante a comemoração dos 12 anos da Infanta de Espanha. No dia de seu aniversário, era-lhe permitido brincar com outras crianças, já que vivia sempre sozinha em seu palácio. Aquele era realmente um momento especial e tudo deveria estar perfeito. Todos estavam ansiosos para ver as atrações que animariam a festa, principalmente o comovente teatro de bonecos ingleses.


Chega, então, uma trupe de palhaços, trazendo, como uma das atrações da festa, um anão grotesco. A criatura não tinha consciência de seu próprio aspecto, pois fora criada isolada na floresta. Na apresentação do anão, a Infanta se diverte com seus gestos ridículos e engraçados. Fascinada, ela lhe oferece uma rosa branca. O anão se enamora da princesa e, a partir de então, passa a lhe sorrir “como se fosse realmente seu igual, e não um pequeno ser desditoso, feito pela natureza em algum momento de humor, para servir de zombaria”.

“A vida como ela é”

Segundo Fernando Guimarães, um dos diretores da peça, embora a história fale de crianças, não tem nada de infantil. “Nosso primeiro contato com Oscar Wilde foi com a obra O retrato de Dorian Grey, mas esse conto resume o trabalho dele. Trata-se de um autor extremamente atual”, comenta.
O diretor faz um paralelo da obsessão com a beleza e mudança de classe da época com o mundo das modelos e celebridades. “Certa vez, uma modelo comentou comigo que fazia anos que não comia. E nesse mundo é assim: se você nasceu bonito, já está acima de várias pessoas. A peça fala desse status que a beleza dá. Parafraseando Nelson Rodrigues, é a vida como ela é”, analisa.


Com elenco composto por André Reis, Eduardo Félix, Leandro Menezes, Lívia Bennet, Mateus Ferrari, Michelly Scanzi, Nathalia Mello, Natália Leite, Rodrigo Lélis, Tati Ramos e Valeria Rocha, a peça levou quatro meses para ser montada. No entanto, está sempre mudando. “É como escrever um texto e, a cada vez que você ler, mudar uma vírgula que seja. Existem cenas que propusemos essa semana; depois que vemos a peça, sempre mudamos algo”, revela Fernando, acrescentando que ele e o irmão estão negociando com o Festival do Maranhão, evento onde pretendem se apresentar depois das duas semanas em cartaz na capital federal. “Mantemos a fidelidade ao conto, na construção dos personagens e do texto”, conclui.


O aniversário da Infanta

De 4 a 14 de março; de quinta a sábado, às 21h; domingo, às 20h, no Teatro Dulcina de Moraes (SDS, bloco C). Ingressos a R$ 20 e R$ 10. NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS.


Sobre o autor

Oscar Wilde escreveu O aniversário da Infanta para seus filhos, utilizando-se dos recursos dos contos de fadas tradicionais para exercitar sua crítica e ironia. Animais e plantas falam, mas a voz humana dada a esses personagens serve de mote para que o autor discuta, por exemplo, a brutal diferença entre as classes sociais.


O escritor nasceu no dia 16 de outubro de 1854, em Dublin, Irlanda. Desde sua infância, viveu cercado de intelectuais e pensadores da arte. Aluno excepcional, recebeu, em 1876, um prêmio em literatura grega e latina. Nesta mesma época, sua carreira passou a ser reconhecida e o escritor começou a viajar pelo mundo. Em 1885, casou-se na Inglaterra com Constance Lloyd. Após o matrimônio, não abandonou as rodas literárias e passou a ser alvo de comentários por suas atitudes e comportamentos extravagantes.


Reconhecido também por sua forma inusitada de se vestir, valia-se de acessórios que, segundo ele, refletiam o mais íntimo de sua alma. Ao mesmo tempo em que conquistava respeito e notoriedade, rumores sobre sua conduta de vida e o romance com Lord Alfred Douglas assolariam de vez a carreira do autor. Após ser preso por práticas homossexuais e cumprir dois anos de prisão, o escritor morreu em Paris, em 1900. Ficou reconhecido como um dos maiores ícones da literatura.


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