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Lea Queiroz
cqueiroz@jronaldacomunidade.com.br Redação Jornal da Comunidade
Após uma crise política sem precedentes, o Distrito Federal vivencia a campanha política mais “sem graça” na perspectiva do eleitorado. A Lei da Ficha Limpa colocou a eleição em suspeição. Além disso, faltam dinheiro, motivação dos militantes, compromisso entre aliados – e até mesmo união –, unidas às regras mais duras da Justiça Eleitoral. O tiroteio tão comum entre os principais candidatos também está aquém do esperado. Os comícios, desde a proibição dos espetáculos com grandes cantores e que atraiam grande parte da população, não empolgam mais o eleitor a sair de casa, a não ser poucas dezenas formadas por cabos eleitorais contratados. O outro ponto, mas não menos importante, é a insegurança jurídica, com candidaturas impugnadas pelo Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal (TRE-DF), a espera de decisão favorável no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e, se for o caso, do Supremo Tribunal Federal (STF).
O cientista político Leonardo Barreto diz que não sabe se o candidato Joaquim Roriz (PSC) vai mesmo até o final do jogo. “Então me parece que essa incerteza tem retirado um pouco da vitalidade da campanha, especialmente por parte dos aliados de Roriz”, comenta o pesquisador. Por outro lado, Barreto aponta que o nome de Agnelo Queiroz (PT) nunca chegou a empolgar a militância do PT. “Apesar dele ter vencido a prévia, ele nunca foi uma unanimidade”, avalia.
O cientista destaca que, a todo esse quadro, soma-se ainda uma “ressaca” da Operação Caixa de Pandora. “A gente está com muita dificuldade de se posicionar com relação a um e ao outro. O cenário é de terra arrasada. A gente não consegue identificar quem se livrou, quem não se livrou, porque está todo mundo normalmente concorrendo”, analisa Barreto.
Para o cientista, muitos fatores colaboram com o clima de campanha morno para o eleitor. “Antes a gente conseguia realmente distinguir quem era vermelho quem era azul, mas hoje, se for buscar a propaganda do Agnelo, por exemplo, ele praticamente não está usando o vermelho. Tem a estrela, tem o 13, mas o logotipo, a logomarca dele não tem vermelho. Existe um problema de identificação, de identidade”, aponta.
![[legenda=Militantes dos dois principais candidatos se concentram em áreas estratégicas em busca dos eleitores][credito=Foto: Divulgação]](/imagem/de89edc80c75eace5690fe02b68cdd40fb9ceaa0/630/420/PNUImagem.jpg)
O professor adjunto do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, Paulo Afonso Francisco de Carvalho, considera que a campanha eleitoral no DF “está muito pior do que as outras já realizadas”. Ele ressalta que Roriz não está colocando nenhuma proposta nova e não há muitas bandeiras. “Ele só tem uma bandeira, é a mesma, essa de distribuição de lotes, ele vai continuar distribuindo lote, e esse é o ponto crucial, em política e educação não vai mudar nada”, reforça o pesquisador.
Para Paulo Afonso, o PT está bem no âmbito do DF, mas ele reforça que o eleitor não está esperando nada por não ter nada de novo. Quanto aos escândalos, à crise política e mesmo a CPI da Codeplan, que apontou nomes ligados aos últimos governos no DF, Afonso diz que esses fatores não influenciam o eleitor de uma maneira geral. “Ele não vai votar numa pessoa por causa de acusação da CPI da Codeplan. Eu acho que a periferia de Brasília está ligada ao lote, a classe média está ligada à esquerda que não vai votar no Roriz e um homem é um voto, o valor do voto da classe média não vale mais, cada um é um voto”, comenta, ao acrescentar que a classe popular é a maioria.
Irresponsabilidade social
No entanto, Paulo Afonso comenta que o problema do Roriz é mais grave, pois houve uma irresponsabilidade social dele total e geral com relação a Brasília. “Ao mesmo tempo dar terra para quem não tem terra, dar lote para quem não tem lote é muito complicado. O Roriz vai continuar sendo popular”, reforça o estudioso, apesar de considerar que o lado da corrupção já está explícito e a Justiça deve tomar conta disso.
“No mais, o PT não sabe lidar com Roriz. Como é que vai lidar com uma pessoa que pega terra do Estado e divide para dar a quem não tem. Como é que vai fazer com ele? É paternalista, é neopopulista, pode ser o que for, mas não adianta, está colocado isso”, diz.
Para Barreto, a disputa entre os concorrentes está quente, mas para o cidadão comum, que não entra na luta direta pelo poder, não há estímulo para se ligar a uma chapa ou outra. “O eleitor não se sente estimulado a colocar adesivo no carro, a ir para a rua manifestar apoio e muitos têm até vergonha de declarar o voto. A campanha está quente para quem disputa o poder, mas está gelada para o cidadão comum porque ele está desestimulado a participar do processo eleitoral”, conclui.
Falta empolgação também na disputa nacional
Tanto a mídia em geral, como a população também está percebendo uma campanha eleitoral um tanto morna na disputa para as eleições presidenciais, constata o professor adjunto do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, Paulo Afonso Francisco de Carvalho. Ele atribui esse dado ao fato de existirem dois projetos que de certa forma são parecidos. “Um partido que propõe ser social democracia, e o outro que é social democracia de fato, que é o Governo Lula. Aí não tem muito ingrediente, não tem muita pimenta nesse debate, não tem como ter”, avalia.
O pesquisador destaca que o próprio Serra utiliza o presidente Lula em sua campanha, o que denota “ser um a sombra do outro”.
Para o cientista político, situações como as que acontecem no DF, onde o partido de Joaquim Roriz, o PSC, apoia a candidata a presidente do PT, Dilma Rousseff, e em sua coligação possui aliados e o próprio partido de José Serra (PSDB) confunde o eleitor. “É complicado, mas é o sistema político que nós criamos. Você tem o sistema majoritário para senador, governador e presidente e ao mesmo tempo você tem um sistema proporcional. Na cabeça do eleitor isso não tem nenhum sentido. O eleitor, a pessoa que vai e trabalha oito horas, 10 horas, passa mais 4 horas se recolhendo num ônibus, ele não entende essas coisas”, avalia.
Legislação e falta de recursos restringe
Para o professor de Comunicação e Política da UnB, Hélio Doyle, a crise política criou na população uma resistência muito grande aos políticos, de modo geral, e à política. “As pessoas não estão muito entusiasmadas, até porque a maioria não acha que vai mudar. Então não tem entusiasmo com político, com eleição, com campanha”, comenta. Segundo o pesquisador, não apareceu um nome, ou mesmo nomes, capaz de “galvanizar” uma postura extremamente ética, inovadora, que fosse uma alternativa de grande mudança no campo ético, o que não entusiasma o eleitor.
Outro fator de desestímulo são as restrições legais que, para Doyle, estão “exageradas”. Ele concorda que tenham restrições, visto que gastar menos em campanha é um fato positivo porque gera igualdade entre os candidatos, entre os que têm dinheiro e os que não têm. No entanto, com as restrições de hoje, ficou difícil fazer campanha. “Se pode fazer campanha com comícios que não vão atrair as pessoas, pode colocar cavalete na rua, placas nas casas e distribuir papel. Até os carros de som, eu não gosto de carro de som não, mas até eles não podem circular pelas principais vias do DF”, comenta. Para o pesquisador, uma campanha com tantas restrições perde o apelo de rua, o entusiasmo. Para se ter ideia, época de campanha no interior é tempo de festa.
Além da descrença do eleitorado e das restrições, Hélio Doyle também destaca que a atual campanha está tendo dificuldade de arrecadar doações. “A falta de dinheiro dos candidatos também decorre da crise, como houve muitas acusações de caixa 2, de corrupção, essa coisa toda, os doadores de campanha estão muito retraídos, não estão querendo se queimar”, comenta. Segundo Doyle, está “rolando” pouco dinheiro nessa campanha, muito menos do que em campanhas anteriores, e isso para todos os cargos. Ele explica que quando não dá dinheiro em cima, esse dinheiro não desce, ou seja, quando dá dinheiro para o governador e senador, eles acabam financiando campanhas de deputados federais e distritais, para criar aquela rede de apoio.
No caso de Joaquim Roriz, o jornalista avalia que o maior problema é a incerteza se ele vai ser mesmo candidato, ou se ganhar, se vai ser mesmo governador. “Os empresários não têm certeza e por isso ele não está conseguindo ter a arrecadação que teria se fosse esse problema”, avalia.
Já para Doyle, no caso de Agnelo, o problema é que o PT se tornou um partido muito complicado e ainda tem o que o pesquisador considera ter sido um erro de estratégia de campanha a falta de identidade do material do candidato com relação à cor vermelha que bem representa o Partido dos Trabalhadores.
“Aí foi um erro de estratégia. A campanha do Agnelo errou feio ao tirar o vermelho e a estrela do PT da campanha. Quando em Brasília a militância do PT é aguerrida, daí se faz uma campanha em que a estrela está escondida e não tem vermelho, isso desestimula o petista e o próprio eleitorado do PT porque passa a ideia de que essa candidatura não é do PT”, analisa.
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