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Em política, todo ato tem consequência. E quando o ato passa da dose, o feitiço vira contra o feiticeiro.
O atual isolamento de Joaquim Roriz (PSC), que foi governador do DF quatro vezes, pode ser explicado por erros estratégicos cometidos por ele e o que sobrou de seu grupo político, conhecido como a turma da varanda.
O grupo foi formado na advocacia e não no marketing político. Isso explica porque a política de Brasília saiu dos palanques e dos debates para cair nos tribunais, nas operações policiais e em fitas clandestinas onde ex-aliados estrelam cenas de corrupção.
Não há como negar que Joaquim Roriz foi o maior político que já existiu no Distrito Federal. Por quatro vezes foi governador, nunca perdeu uma eleição e chegou a possuir um patrimônio eleitoral de fazer coçar a cabeça os coronéis do Nordeste. O tempo foi passando e a gana pelo poder da turma da varanda derrubou as barreiras e ultrapassou os limites para se manter - ou voltar - a dar as cartas na cidade.
Sem o poder e com o sucesso administrativo do ex-governador José Roberto Arruda (sem partido), chegou-se à conclusão que era preciso eliminá-lo para que Roriz voltasse ao comando do governo do Distrito Federal. Arruda era, naquele momento, franco favorito a mais um mandato.
Para isso foram escaladas figuras sombrias no papel de algozes de Arruda. Operação semelhante como a de contratar pistoleiros para eliminar adversários. Mas era preciso apenas incriminá-lo e mostrar a sua principal fraqueza: a corrupção desenfreada que contaminava o seu governo.
Sabendo-se da fraqueza de Arruda, até porque trata-se de práticas continuadas de governos anteriores, montou-se o plano. Pegou-se fitas anteriores à gestão Arruda e tratou-se de produzir novas imagens para derrubar o governo. Algumas das fitas datam do período de 2002 a 2006, quando Joaquim Roriz era o governador. Surgiu, daí, a operação Caixa de Pandora.
Antes do estouro de 27 de novembro de 2009, foram feitas várias sessões de vídeos em casas de pessoas próximas a Roriz. Nessas reuniões, eram escolhidas vítimas que iriam cair junto com Arruda.
Um dos critérios para o salvamento era se esse ou aquele poderia futuramente compor a aliança que traria Roriz de volta ao GDF. Quem não caiu na graça da turma da varanda caiu em desgraça com a Caixa de Pandora.
Força desproporcional
O governo Arruda acusou o golpe e veio abaixo mais rápido do que imaginava a turma da varanda. O principal adversário havia sido derrotado com relativa facilidade e o terreno ficou limpo para a volta de Roriz, que poderia ser reapresentado como o salvador. Mas a arrogância não permitiu que notassem que apesar do terreno estava limpo, o cenário era de terra arrasada.
Achava-se que bastava fazer a politica no velho estilo de Roriz, trancado dentro de casa no Setor de Mansões do Park Way, para os empresários surgirem com sacos de dinheiro para bancar a campanha. Tudo na cabeça dos bruxos da varanda, mais advogados e policiais que analistas políticos.
Ninguém na varanda percebeu o estrago. Quando se derrubou Arruda, surgiu no povo brasiliense a sensação de nojo de tudo que estava sendo feito. E, na mente do cidadão, sabe-se que aquilo não surgiu com Arruda.
Não notaram o cansaço que a cidade ficou com a Caixa de Pandora e a desilusão com a politica. A imagem de Brasília foi para o ralo, assim como a autoestima de sua gente, envergonhada com práticas que se desconfiava há duas décadas, mas que se preferiria não acreditar. Nem se sabia sua dimensão.
O povo percebeu que talvez Roriz não fosse a solução quando começou a perceber-se através de investigações e de pessoas citadas que ele estaria envolvido e que tudo começou em seu governo. Acusadores e acusados se misturam em culpabilidade e possuem a mesma origem: o governo de Joaquim Roriz.
A fonte secou
Tudo isso fez vários segmentos da cidade manterem distância do projeto de retorno do ex-governador. O empresariado virou as costas e deixou Roriz, que nunca foi muito afeito a meter a mão no bolso, sem dinheiro.
Com a fonte seca, voltaram as ameaças de que no hipotético quinto governo Roriz contratos seriam encerrados e empresas seriam fechadas através da mão forte do Executivo.
As principais lideranças da cidade fugiram. A única política de expressão que aceitou compor com ele foi a ex-governadora Maria de Lourdes Abadia (PSDB). Afundou no mesmo barco e, coincidentemente, também foi enquadrada na Lei da Ficha Limpa e teve negado seu registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Fazem campanha graças a recurso no Supremo Tribunal Federal (STF), onde tentam derrubar o vigor da lei para a eleição deste ano.
Entorno perdido
Joaquim Roriz corre o risco de perder até no Entorno, considerado seu feudo eleitoral. As bolas estão trocadas na região. Quem é aliado em Brasília é adversário em Goiás.
Ali, quem está bem é o candidato a governador Marconi Perillo (PSDB). Mesmo sendo do partido de Abadia, Perillo é adversário político. Em Goiás, Roriz apoia o ex-governador Iris Resende (PMDB), do partido que apoia Agnelo.
Mais vídeos, novas ameaças
Em desvantagem nas pesquisas, a coligação de Roriz reorganiza as forças e traça planos. O principal deles é a divulgação de novas fitas. Uma espécie de Caixa de Pandora II. Seriam novos filmes direto da fonte e da ilha de edição.
Num deles, mostram o candidato adversário, Agnelo Queiroz (PT), conversando com o delator da Caixa de Pandora, Durval Barbosa. No encontro, o petista teria sido convidado para assistir vídeos, entregues por Barbosa, que futuramente seriam peça principal do inquérito aberto pela Polícia Federal.
Durval Barbosa começou sua carreira no governo do Distrito Federal com o ex-governador Joaquim Roriz, a quem é muito ligado, e ficou de herança para os ex-governadores Maria de Lourdes Abadia e José Roberto Arruda.
Partidos ruídos
Outros políticos da coligação fazem campanha solo. É o caso da distrital Eliana Pedrosa (DEM) e do candidato a senador Alberto Fraga (DEM). O DEM e o PSDB foram humilhados duas vezes por Roriz.
A primeira, com a Caixa de Pandora. A segunda, na coligação, deixando candidatos proporcionais sozinhos para atingir coeficiente. Roriz não colou nenhum partido nanico para melhorar a soma de votos. Resultado: DEM e PSDB a caminho da extinção no DF.
O PMDB conseguiu sobreviver porque seu presidente regional, Tadeu Filippelli, tratou de levar a legenda para bem longe dos arquitetos da Pandora. Do contrário, seria mais um massacrado.
Sem apoio político, financeiro e popular, Roriz armou uma coligação com o que lhe sobrou. Conclamou o deputado Jofran Frejat (PR) a ser seu vice sem consultar o partido do indicado. Frejat teve que deixar o seu descanso e sair às ruas.
Para atrair o PSDB, foram buscar Maria de Lourdes Abadia em casa. Não cuidaram nem de ver a situação jurídica dela. Era o mínimo que se podia esperar de uma campanha conduzida por juristas.
Outros partidos menores, com pouco a perder, foram os primeiros a aderir à campanha rorizista. A esses, o ex-governador presenteou com as melhores coligações proporcionais. O nanico PSC, por exemplo, deve fazer mais deputados distritais que o ainda gigante DEM.
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